O
Ministério Público de Contas de Roraima (MPC-RR) protocolou uma representação
junto ao Tribunal de Contas do Estado (TCE-RR) solicitando a realização de uma
auditoria operacional para avaliar a política de drenagem urbana de Boa Vista
executada entre 2021 e 2026. O período analisado abrange, em sua maior parte, a
gestão do ex-prefeito Arthur Henrique, que administrou o município de janeiro
de 2021 até abril de 2026, além dos primeiros meses da atual gestão do prefeito
Marcelo Zeitoune.
De
acordo com o documento, o objetivo é verificar se os recursos públicos superiores
a R$ 500 milhões destinados às obras de drenagem produziram resultados efetivos
na redução dos alagamentos enfrentados pela população da capital. O MPC-RR
argumenta que, apesar dos anúncios feitos pela Prefeitura sobre a eliminação de
pontos críticos de alagamento ao longo dos últimos anos, Boa Vista voltou a
registrar ruas inundadas, residências afetadas pelas chuvas e áreas de risco
monitoradas durante o inverno de 2026.
A
representação foi assinada pelo procurador de contas Paulo Sérgio Oliveira de
Sousa, que pede ao Tribunal a instauração de auditoria para analisar aspectos
como eficiência, eficácia, economicidade e efetividade da política pública de
drenagem urbana.
Plano de drenagem é um dos pontos questionados
Entre
os principais questionamentos apresentados pelo MPC-RR está a ausência de um
Plano de Drenagem e Manejo das Águas Pluviais Urbanas consolidado. Segundo a
representação, a própria revisão do Plano Diretor de Boa Vista, realizada em
2024, ainda indicava a elaboração desse instrumento como uma ação a ser
cumprida pelo município.
O
órgão também sustenta que existem divergências nas informações divulgadas pela
Prefeitura sobre a quantidade de pontos críticos de alagamento solucionados.
Conforme o documento, diferentes comunicados oficiais apresentam números que
não convergem entre si, dificultando a aferição dos resultados alcançados pelas
intervenções executadas ao longo dos últimos anos.
Chuvas e alagamentos
Um
dos argumentos centrais da representação é que os alagamentos em Boa Vista não
podem ser tratados como eventos imprevisíveis. O MPC-RR destaca que a capital
possui um regime de chuvas regular e conhecido, com média histórica de 1.716
milímetros por ano e período chuvoso concentrado entre abril e setembro.
“O
próprio Plano Diretor do município reconhece a vulnerabilidade da cidade a
inundações e alagamentos, além de contar com mapeamento técnico de áreas de
risco”, destaca o Procurador.
Para
o órgão, a previsibilidade das chuvas desloca o debate para a qualidade do
planejamento e da infraestrutura adotados pela administração municipal. A
representação também aponta que os índices de precipitação em 2024 e 2025
ficaram acima da média histórica, o que reforçaria a necessidade de sistemas de
drenagem preparados para cenários já conhecidos pelo poder público.
Além
disso, o MPC-RR questiona os números divulgados pela Prefeitura sobre a
quantidade de pontos críticos solucionados, alegando que diferentes balanços oficiais
apresentam informações divergentes, dificultando a comprovação dos resultados
anunciados. O documento ainda cita episódios recentes de alagamentos
registrados em 2025 e 2026, incluindo ruas inundadas, famílias retiradas de
áreas de risco e o Rio Branco atingindo a cota de alerta, como indícios de que
os problemas persistem apesar dos investimentos realizados.
Recursos públicos serão analisados
Outro
ponto que deverá ser objeto da auditoria é a aplicação dos recursos destinados
às obras de drenagem. O Ministério Público de Contas cita o anúncio de R$ 106
milhões destinados pela bancada federal de Roraima para obras de drenagem e
asfaltamento em Boa Vista, além de um pacote municipal de investimentos
superior a R$ 500 milhões divulgado pela Prefeitura.
Segundo
o órgão, caberá à auditoria verificar quanto desses recursos foi efetivamente
aplicado em ações de drenagem, quais obras foram executadas, quais resultados
físicos foram alcançados e se houve compatibilidade entre os investimentos
realizados e a redução dos problemas enfrentados pela população.
Pedidos ao Tribunal
Na
representação, o MPC-RR solicita que o TCE-RR requisite ao Município de Boa
Vista documentos como o Plano de Drenagem, cadastro georreferenciado dos pontos
críticos de alagamento, contratos e medições das obras realizadas desde 2021,
além de relatórios da Defesa Civil e registros de ocorrências relacionados aos
alagamentos.
O
pedido ainda será analisado pelo Tribunal de Contas do Estado, que decidirá
sobre a abertura da auditoria e os encaminhamentos da fiscalização.



