O catarinense Diogo Roberto Ringenberg, presidente da Associação Nacional do Ministério Público de Contas (AMPCON), entende que um Tribunal de Contas técnico e menos político será mais eficiente e usual para a sociedade. Grande parte das mazelas sociais poderiam ser evitadas caso a função das Cortes de Contas fosse levada a sério no país. É neste sentido que a AMPCONdefende as prerrogativas de função dos procuradores do MPC. Ringenberg dá a receita e mostra a cadeia de acontecimentos que ocorre quando os órgãos de fiscalização não agem.
Tribuna Independente - As supostas afrontas à atuação do Ministério Público de Contas de Alagoas representam uma ameaça ao Estado Democrático de Direito?
Diogo Ringenberg - O Estado Democrático de Direito é algo que vem sendo arrancado a fórceps das páginas da Constituição todos os dias, nestes últimos 25 anos. É isto que está acontecendo em Alagoas em relação ao Tribunal de Contas. Trata-se de uma instituição que necessita urgentemente ser modernizada, para fazê-la encontrar-se com os primados da república, da transparência, do compromisso verdadeiro com o que é de todos. O Ministério Público de Contas de Alagoas vem lutando a duras penas contra este estado de coisas, de forma madura e responsável. No pouco tempo de sua existência conseguiu alcançar algumas vitórias para a causa pública, e para a sociedade de Alagoas. Se há certo acomodamento de instituições que poderiam defender o MPC isto se deve por certo a uma certa cultura de individualismo institucional. As instituições precisam aprender a trabalhar unidas, pois assim serão mais fortes. De qualquer forma temos encontrado eco junto a outras instituições que também passam pelas mesmas dificuldades e que já entenderam esse novo paradigma que é o da atuação cooperada. Cito aqui por exemplo, o procurador-geral do Ministério Público do Estado de Alagoas, que não falhou no seu apoio. A AMPCON defenderá o MPC de Alagoas em todas as instâncias, administrativas e judiciais, e não hesitará em levar ao conhecimento da comunidade internacional, as tentativas de o enfraquecer.
T.I. - Quando o Tribunal não cumpre sua prerrogativa constitucional de fiscalizar, quem pode enquadrá-lo pela ingerência? E o que acontece quando eles não agem, apenas a corrupção e os desvios nos órgãos?
Diogo Ringenberg - Não cumprir as funções que lhe foram confiadas equivale a negar tais prerrogativas. Quem não quer fazer valer as prerrogativas que possui não as merece. No caso dos Tribunais de Contas a forma mais eficiente de cobranças à instituição deve ser aquela feita pela sociedade. Os Tribunais de Contas vivem tranquilamente em uma espécie de mundo da fantasia porque a sociedade não os conhece e não sabe o que pode e deve cobrar deles. Nos movimentos de rua de junho, 99% das reclamações que bradadas pela população deveriam ser fiscalizadas pelos Tribunais de Contas. Se a educação está muito ruim, se a saúde é a vergonha nacional, se o transporte público é caro e ineficiente, onde está o Tribunal de Contas? Ele é o primeiro órgão público com o dever de fiscalizar estes serviços, inclusive sem qualquer tipo de provocação. O povo deve começar a ir para a frente dos Tribunais de Contas se quiser viver melhor. Impostos pagamos o suficiente. Os Tribunais de Contas poderiam ser o melhor instrumento da sociedade no combate à corrupção. Poderiam mas não são. Quando eles se omitem a corrupção e os desvios são consequências naturais, mas o efeito mais dramático desta omissão é a destruição de sonhos, de vidas e das perspectivas de um futuro melhor.
T.I. - A Ampcon tem um projeto de mudança nos Tribunais de Contas, o que ele diz?
Diogo Ringenberg - Temos discutido com muitos parlamentares brasileiros a necessidade urgente de mudanças nos Tribunais de Contas. Há de certa forma uma anuência geral com a ideia de que como está não dá mais para ficar. Temos uma proposta que não está fechada, pois sabemos que seu aprimoramento sempre será possível. Ela tem servido para patrocinar o debate e amadurecer o tema. Atualmente temos buscado parceiros que queiram discutir um novo Tribunal de Contas. Pretendemos basicamente diminuir a forte influência político-partidária que tem impedido os Tribunais de Contas de atuar como instituições independentes. Um bom começo seria privilegiar as carreiras técnicas. Atualmente aproximadamente 80% das vagas são destinadas a políticos e 20% apenas por técnicos, em algum momento da vida submetidos a concurso público. Se conseguirmos inverter este percentual teríamos um grande avanço.
T.I. - Muitas operações de repressão a corrupção, em todo o país, são sinais da falência dos Tribunais de Contas?
Diogo Ringenberg - Esta pergunta é algo que venho fazendo há muito. Como estão estruturados hoje, os Tribunais de Contas não conseguem lograr respostas às esperanças da sociedade, cristalizadas pela Carta de 1988. Se há alguma dúvida disto, basta que reflitamos a respeito da percepção de corrupção, improbidade e má gestão que vigora. Será que ela diminuiu? Claro que não. Raramente vemos estas instituições expondo os ‘escândalos’ da hora. Normalmente elas têm apenas reagido, muitas vezes timidamente, a reboque da imprensa quando não são elas mesmas a fonte do escândalo. Mesmo que algo dessas muitas operações de repressão à corrupção pudesse ser creditado à atuação dos Tribunais de Contas, haveríamos de refletir sobre a ineficiência em fazê-lo de forma preventiva. Neste caso, dificilmente haveriam “escândalos”, pelo menos não destes que normalmente são divulgados e que sempre deixam a pairar a mensagem subliminar de que alguém não fez o que deveria ter feito.
T.I. - Além de Alagoas, há outro Estado em que a AMPCON tem voltado suas ações para proteger a atuação de seus procuradores, e porquê?
Diogo Ringenberg - Há muitos anos a AMPCON vem tentando proteger a atuação de procuradores de contas em todo o Brasil. Durante muitos anos essa luta foi porém para instituir o MPC em todo o Brasil. São Paulo, que tem um dos maiores e mais ricos Tribunais de Contas da Federação implantou o MPC há apenas um ano e meio. Os colegas de lá lutam com dificuldades pois não possuem estrutura adequada de trabalho para um volume colossal de processos. Vêm enfrentando dificuldades que se têm tornado folclóricas em relação à manutenção do órgão, algumas delas, mesquinharias destinadas a dificultar o seu trabalho. Atualmente dos 34 Tribunais de Contas brasileiros apenas o TCM/SP ainda não implantou a carreira. Lá atuam em desvio de função, advogados do Município de São Paulo, que atuam fiscalizando as contas do seu chefe, o prefeito de São Paulo.
Fonte:Tribuna Hoje - AL



