Reportagem da revista Veja destaca corrupção nos Tribunais de Contas

Reportagem da revista Veja destaca corrupção nos Tribunais de Contas

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Desde que deixou o cargo de secretário de governo na gestão de Mário Covas (PSDB), em 1997, Robson Marinho ocupa uma cadeira no Tribunal de Contas do Estado de São Paulo. Como conselheiro do órgão (cargo vitalício e com salário superior a 20 000 reais mensais), sua função é analisar os gastos do governo de forma a evitar roubalheiras e mau uso do dinheiro público. É uma responsabilidade e tanto. Mas o fato de o conselheiro ser acusado desde 2008 de ter recebido suborno para favorecer a multinacional francesa Alstom e de, segundo o Ministério Público, ter 2,5 milhões de dólares numa conta secreta na Suíça não foi suficiente para afastá-lo do cargo. Marinho, que há apenas um mês começou a ser investigado pela Corregedoria do TCE-SP. continua sentado em sua cadeira no tribunal, de onde zela pela lisura dos contratos bilionários do governo paulista.

O caso de Robson Marinho está longe de ser uma exceção. Um levantamento inédito feito pela Transparência Brasil mostra que um em cada cinco dos 238 conselheiros de tribunais de contas no Brasil é alvo de processos na Justiça ou nas próprias cortes. A maioria dos processos é por improbidade administrativa (não se espera que entendam do assunto, afinal?), mas há casos de homicídio também. O conselheiro do TCE de Alagoas Luiz Eustáquio Tolêdo, por exemplo, tem nas costas uma condenação por assassinato. Matou a mulher com um tiro na cabeça quando já ocupava uma cadeira no órgão, em 1987. Foi sentenciado a seis anos no regime semiaberto e, durante esse período, cumpriu a esdrúxula rotina de ir para a corte durante o dia, fiscalizar a administração do estado e dormir à noite num quartel, na condição de preso condenado. Até hoje ocupa uma cadeira no TCE-AL.

No Amapá, o ex-presidente do tribunal de contas José Julio Coelho foi alvo de um inquérito da Polícia Federal e acusado de amealhar por vias ilegais oitenta imóveis de luxo espalhados por seis capitais, além de carros como Ferrari e Maserati. Segundo a PF, ele foi o mentor de um esquema que desviou mais de 300 milhões de reais dos cofres do próprio tribunal: duplicava a folha de pagamento do órgão e sacava a metade fajuta por meio de cheques. Ao menos 7,5 milhões de reais teriam sido sacados pessoalmente pelo conselheiro na boca do caixa, diz o inquérito da PF. Em 2010, a polícia desmontou o esquema. Em 2012, o ex-presidente e outros três conselheiros foram afastados do cargo pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). Mas todos continuam a receber normalmente seu salário.

Outro dado do levantamento da Transparência ajuda a explicar por que os casos de corrupção nos tribunais de contas são tão comuns. O cargo de conselheiro, em vez de caber a técnicos preparados para vigiar os corruptos, no Brasil costuma ser oferecido como prêmio de aposentadoria a políticos em fim de carreira. Segundo o levantamento da Transparência Brasil, nada menos que 62% dos atuais conselheiros dos 34 tribunais de contas do país são ex-políticos. A cultura de agraciar aliados e apadrinhados com os gordos salários dos tribunais e suas mordomias vitalícias acaba criando situações como a da ex-deputada estadual Lilian Martins, do PSB do Piauí. Ela foi nomeada em 2012 para exercer a missão de fiscalizar as contas do próprio marido, o então governador Wilson Martins, que deixou o cargo em abril para concorrer ao Senado.

Tribunais de contas existem em vários países e, apesar do nome, são órgãos auxiliares do Legislativo, sem relação com o Judiciário. Nas nações desenvolvidas, praticamente inexistem neles membros nomeados por motivos políticos. Na França, apenas o presidente é indicado por um conselho de ministros, mas só pode ser selecionado entre os mais de 700 magistrados que fazem parte do tribunal e foram escolhidos entre os melhores alunos da Escola Nacional de Administração. Em Portugal, os conselheiros são selecionados por concurso. Nos Estados Unidos, apenas o chefe é nomeado pelo presidente.

Um projeto de lei que está no Congresso desde o ano passado propõe uma maneira de pôr fim a esse atraso. Prevê que os conselheiros sejam escolhidos entre técnicos dos tribunais e do Ministério Público de Contas por meio de eleição interna. Sua aprovação significaria ao mesmo tempo um aumento da fiscalização e o fim de uma aposentadoria confortável para os políticos. Assim, ele permanece parado desde que foi apresentado, em outubro. Enquanto isso, nos galinheiros, a ordem é salve-se quem puder. Suas excelências, os conselheiros: José Júlio Coelho – Investigado por sacar 7,5 milhões

Ex-presidente do TCE do Amapá, segundo a Polícia Federal comandou um esquema que desviou mais de 300 milhões de reais dos cofres da instituição ao longo de dez anos.
As investigações indicam que o conselheiro sacou pessoalmente 7,5 milhões de reais na boca do caixa. Foi afastado em 2012, mas continua a receber o salário de 25 323 reais.

Luiz Eustáquio Tolêdo – Condenado por matar a mulher
Membro do TCE de Alagoas, matou a mulher com um tiro na cabeça e depois fugiu para evitar o flagrante. Na década de 90, foi condenado a seis anos de prisão no regime semiaberto. Ia para o tribunal durante o dia, para fiscalizar e julgar contratos do estado, e dormia em um quartel do Corpo de Bombeiros à noite. Permanece como conselheiro do tribunal até hoje.

Jonas Lopes de Carvalho – Acusado de vender sentenças
O presidente do TCE do Rio de Janeiro é acusado pelo Ministério Público Federal de ter recebido 20000 reais para aprovação das contas de Carapebus, que havia contratado uma consultoria fictícia. Continua no cargo e, no início do mês, sentou-se à mesa das autoridades na posse do novo governador do estado: “É um reconhecimento do nosso trabalho”, afirmou.

Fonte: VEJA