Ministério Público de Contas conclui investigação e pede afastamento de secretário de Saúde

O Ministério Público de Contas de Roraima (MPC) concluiu o Procedimento Investigatório Preliminar (PIP) instaurado em dezembro do ano passado para apurar a legalidade do processo licitatório que previa o fornecimento de alimentos para unidades de saúde na rede estadual. Uma denúncia anônima feita ao órgão fiscalizador indicava fraude no certame. A licitação estava avaliada em pouco mais de R$ 11 milhões.

O relatório final aponta indícios de irregularidades na licitação. Em representação enviada ao Tribunal de Contas do Estado (TCE) na semana passada, o MPC pede, entre outras medidas, o afastamento do secretário de Estado da Saúde, Leocádio Vasconcelos. Uma representação também foi encaminhada ao Ministério Público Estadual (MPE) para providências civil e criminal.

De acordo com as investigações, houve falta de planejamento, superfaturamento dos preços e direcionamento da licitação. Foi identificada a participação do secretário de Saúde e servidores daquele órgão que desempenharam diversas tarefas ao arrepio da lei, desde a elaboração de projetos básicos viciados, inclusão de cláusulas restritivas no edital e manipulação na cotação de preços. 

Conforme a representação, o contrato nº 057/2007 de fornecimento de alimentos às unidades de saúde executado pela empresa Megafoods foi prorrogado cinco vezes e possuía termo final marcado para o dia 26 de outubro de 2012. Até o encerramento desse último contrato todos os atos para a realização de uma nova licitação deveriam estar concluídos, o que não ocorreu, caracterizando a falta de planejamento no serviço público. 

Essa demora para realizar uma nova licitação, que só ocorreu em dezembro de 2012 - dois meses após o fim do contrato com a Megafoods - fabricou uma situação de emergência para justificar a contratação direta.

Os procedimento para a nova licitação tiveram início em 8 de fevereiro de 2011 e, por culpa do secretário Leocádio Vasconcelos, segundo as investigações, o certame fora constantemente retardado, só ocorrendo quase dois anos depois. Conforme uma servidora da Sesau ouvida em depoimento, o tempo médio de uma licitação é de seis meses.

Além disso, os preços cotados não correspondiam aqueles praticados no mercado. O quantitativo de preço constante no Edital de Licitação nº 051/2012 totalizou R$ 11.383.203,72. Ao ser comparado a Tabela de Demonstrativos de Situação de Demanda do Edital nº 001/2013, que substituiu o anterior, o valor estimado é de R$ 9.297.365,04, caracterizando uma economia de R$ 2.085.838,68 aos cofres públicos, o que demonstra superfaturamento na licitação.

Para se ter uma ideia da disparidade entre os preços, uma refeição “desjejum dieta livre e branda” no pregão presencial lançado no ano passado pela Sesau custaria R$ 4,18. No pregão eletrônico, elaborado neste ano em razão de recomendação do Ministério Público de Contas que pediu a suspensão do certame anterior, esta mesma refeição custará aos cofres públicos R$ 1,91.

THAYTY – Ainda conforme as investigações, “a empresa objeto da denúncia anônima, Thayty Indústria e Serviços LTDA-ME, que seria favorecida no processo licitatório, não possuía registro de entrada ou saída de mercadorias desde seu cadastramento, bem como não se encontrou notícias de prestação de serviços anteriores ao Pregão Presencial nº 057/2011, embora possua um capital social integralizado de R$ 700 mil”.

Vale destacar que esta empresa é quase homônima a Thaiti Indústria Alimentícia LTDA-ME, que já participou de concorrências públicas, mas que, no entanto, encontra-se impossibilitada de participar de novas licitações em razão de inúmeras pendências tributárias que ainda persistem.

“Observa-se claramente que houve uma espécie de ‘sucessão’ das empresas, uma vez que após a baixa da Thaiti Indústria Alimentícia LTDA-ME, em ato quase contínuo, a Thayty Indústria e Serviços LTDA-ME estabeleceu-se no mesmo endereço (...), mantendo a mesma atividade econômica, em que pese inexistir identidade entre seus sócios”, destaca a representação formalizada pelo MPC.

“Esta ‘coincidência’, dentro do contexto dos fatos, foge dos padrões de normalidade e revela fortes indícios de que a segunda empresa [Thayty Indústria e Serviços LTDA-ME] foi utilizada para operacionalizar a fraude no processo licitatório”, conclui a investigação.

PUNIÇÃO – Em razão das irregularidades detectadas, o Ministério Público de Contas de Roraima requer ao Tribunal de Contas de Roraima a adoção de todas as providências, extrajudiciais e judiciais necessárias. Pede também o afastamento de Leocádio Vasconcelos do cargo de secretário estadual de Saúde, a instauração de inquérito civil público para elucidação dos fatos e conseqüente formalização de ação de improbidade administrativa contra os envolvidos para o devido ressarcimento ao erário público.

HABEAS CORPUS – Durante a apuração dos fatos, foram ouvidos servidores da Secretaria Estadual de Saúde que apontaram a responsabilidade do titular da pasta, Leocádio Vasconcelos, pela demora na realização da licitação.

No entanto, o secretário não foi ouvido durante as investigações, uma vez que até o momento não marcou dia nem hora para sua oitiva. Tal procedimento é uma prerrogativa constitucional dos secretários estaduais.

Leocádio Vasconcelos conseguiu uma liminar para que fosse cumprido o seu direito constitucional, evitando que fosse conduzido coercitivamente para prestar esclarecimentos. O MPC corrigiu a distorção atendendo a determinação judicial, por isso, no mérito, o habeas corpus perdeu o objeto.